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16 de Maio de 2021
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    A urgência de uma ética universal em Karl-Otto Apel e a situação pandêmica no Brasil

    Cynthia Lays Feitosa de Brito, Bacharel em Direito
    mês passado

    Considerado um dos restauradores da filosofia prática, o filósofo alemão Karl-Otto Apel, na sua obra Transformação da Filosofia 2: O a priori da comunidade de comunicação, debruçou-se sobre aquilo que ele chama de problema acerca de uma fundamentação racional da ética na era da ciência.

    De acordo com o autor, há, hodiernamente, uma relação paradoxal entre ética e ciência. A contradição ocorre porque existe a carência e a necessidade de uma ética universal – para a sociedade moderna, industrial, tecnológica e planetária - ao mesmo tempo em há uma dificuldade de fundamentar filosoficamente tal ética. Escreve o autor:

    Quem reflete sobre a relação entre ciência e ética na sociedade industrial moderna e global, vê-se, a meu ver, diante de uma situação paradoxal. Pois, de um lado, a carência de uma ética universal, ou seja, de uma ética obrigatória para a sociedade humana como um todo, jamais foi tão urgente quanto em nossa era de uma civilização unificada, planetária e criada pelas consequências tecnológicas da ciência. Por outro lado, a tarefa filosófica de uma fundamentação racional da ética universal jamais pareceu tão difícil e tão sem perspectiva quanto na era da ciência. (APEL, 2000, p. 407).

    No que concerne às ações humanos e aos efeitos delas decorrentes, na sua argumentação, distingue o autor três campos, quais sejam, um microcampo, referente à família, casamento e vizinhança; um mesocampo, relativo à política nacional; e um macrocampo, que abarca o destino de toda humanidade. Em virtude do desenvolvimento científico da sociedade moderna, as ações e omissões humanas - outrora guiadas por normas morais mais inclinadas ao microcampo – ecoam, hoje, nos interesses de toda a humanidade, isso é, no macrocampo:

    Hoje em dia, as consequências tecnológicas da ciência proporcionaram um tal escopo e um tal alcance às ações e omissões humanas, que já não é possível contentar-se com normas morais que regulem a convivência humana em pequenos grupos e que releguem as relações entre os grupos à luta pela existência, em sentido darwiniano.

    [...]

    Em consequência da expansão planetária e do entrelaçamento internacional da civilização tecnológica, os efeitos das ações humanas no presente – no interior da produção industrial, por exemplo – devem ser localizadas de maneira ampla no macrocampo dos interesses vitais comuns a toda humanidade. (APEL, 2000, p. 408-409).

    Desse modo, os resultados obtidos pela ciência e pela técnica industrial, como, por exemplo, a criação da bomba atômica, trouxeram a necessidade de uma ética universal, comum a todos os povos, que assumem uma responsabilidade solidária – que corresponderia a uma validação intersubjetiva das normas - por suas ações que geram consequências globais (APEAL, 2000, p. 410).

    Entrementes, para Apel, no campo teórico ou metateórico, a ideia de objetividade científica prejudica uma ética universal da responsabilidade solidária, tendo em vista que remete a validação das normas ou juízos morais de valor ao campo da subjetividade não obrigatória. A ideia de objetividade científica, normativamente neutra, aponta para a impossibilidade de fundamentação racional das normas e valores morais, que seriam vistas como oriundas de meras emoções ou decisões irracionais, além de variáveis no tempo e no espaço.

    De acordo com isso, não são as próprias normas éticas que se mostram passíveis de uma fundamentação racional, mas tão-somente as descrições isentas de valor das normas morais factualmente seguidas ou ainda as elucidações causais e estatísticas da instituição de normas morais ou de sistemas valorativos pelas assim chamadas ciências sociais empíricas. (APEL, 2000, p. 410).

    Portanto, a mesma ciência que gera a necessidade de uma ética universal, também, a impossibilita - nisso reside a situação-problema acerca da fundamentação racional da ética na era da ciência, para o autor.

    Não é difícil vislumbrar a atualidade da questão posta pelo filósofo, que está na ordem do dia. A crise sanitária, decorrente da pandemia do Covid-19, que assola todo o mundo e que bem exemplifica um dos aspectos do problema, torna cristalino que ações tomadas no âmbito dos Estados, mesmo soberanos e independentes, bem como as ações individuais realizadas no seu interior, têm o condão de reverberar em todo o planeta.

    Hodiernamente, não mais se trata apenas de reconhecer, literária e poeticamente, a identidade comum de todo homem. Sim, quando os sinos dobram, eles dobram por todos nós, conforme foi escrito pelo poeta no século XVI, mas, na sociedade tecnológica, a questão adquire contornos mais dramáticos, agora, todo homem é uma parte do mundo todo e suas ações se irradiam em questões vitais para toda a humanidade.

    A conjuntura da pandemia no cenário nacional, decorrente de uma postura governamental no mínimo irresponsável, é uma ameaça para toda a comunidade internacional. Nesse contexto, resta mais do que evidente a emergência de uma ética universal – mesmo que seja um empreendimento difícil, mesmo que até numa perspectiva microscópica, no nosso plano local, haja um contexto absolutamente desfavorável para a moral e a ética.

    REFERÊNCIAS

    APEL, Karl-Otto. Transformação da Filosofia 2: O a priori da comunidade de comunicação. São Paulo: Loyola, 2000.

    1 Comentário

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    Parabéns pelo Excelente artigo Doutora, saudades ti. continuar lendo